Atendimento assíncrono via WhatsApp
Muito antes da internet, Freud já mantinha correspondências extensas com pacientes e colegas, nas quais apareciam elementos de elaboração, associação e construção de sentido sobre o sofrimento psíquico, ainda que isso não fosse nomeado como “psicoterapia à distância”. Com o telefone, ao longo do século XX, tornou‑se relativamente comum o uso de ligações em situações de crise, continuidade de tratamento ou impossibilidade de comparecimento presencial, inaugurando uma primeira forma de “setting estendido” para além do consultório físico.
Com a popularização da internet, nos anos 1980 e 1990, começam a surgir formas mais sistemáticas de aconselhamento e escuta online – dos fóruns anônimos, como o “Dear Uncle Ezra”, em Cornell (1986), às primeiras experiências de psicoterapia por e‑mail, em meados da década de 1990, já com pagamento e vínculo estável entre paciente e terapeuta. Nesse período, a comunidade acadêmica e clínica oscilava entre curiosidade e ceticismo: discutia‑se se seria possível sustentar transferência, aliança terapêutica e profundidade analítica mediadas por telas e teclados.
A virada decisiva vem com a massificação dos smartphones e dos aplicativos de mensagens instantâneas, que tornam o contato escrito e por voz quase contínuo no cotidiano. A partir dos anos 2010, consolidam‑se plataformas comerciais de “message‑based psychotherapy”, baseadas em trocas assíncronas de texto e, progressivamente, em áudios, com estudos mostrando que esse formato pode ser tão eficaz quanto sessões por vídeo, ao menos para determinados quadros, sobretudo ansiosos e depressivos. Em paralelo, programas públicos de saúde mental em diferentes países passam a incorporar intervenções assíncronas estruturadas (mensagens, SMS, portais online), mostrando que é possível organizar uma clínica que se distribui no tempo, sem depender exclusivamente do encontro síncrono.
É nesse horizonte que se inscreve a proposta de uma “sessão assíncrona” via WhatsApp por áudios: não apenas como adaptação pragmática à vida hiperconectada, mas como herdeira de uma longa história de tentativas de expandir o campo da escuta, testando como a palavra – falada, escrita, gravada – pode seguir funcionando como lugar de transferência, simbolização e elaboração, ainda que o consultório, aqui, se desloque para o intervalo entre um envio e outro, entre o silêncio da espera e a chegada de uma voz que responde.
Importante sublinhar que não se trata de substituir integralmente a psicoterapia presencial ou por vídeo, mas de pensar um dispositivo híbrido ou alternativo, especialmente em situações nas quais o paciente encontra dificuldades de manter horário fixo, vive crises que exigem maior flexibilidade, ou se beneficia de um enquadre que acompanhe mais de perto o fluxo de suas elaborações ao longo do dia.
Potenciais benefícios clínicos
Continuidade do processo de elaboração: A possibilidade de enviar áudios no momento em que algo emerge (um afeto, uma lembrança, uma situação disparadora) reduz a latência entre a experiência e a simbolização, aproximando o setting da temporalidade real do paciente e evitando que material importante se “perca” entre sessões.
Acesso e engajamento ampliados: Estudos com psicoterapia baseada em mensagens indicam boa adesão, aceitabilidade e eficácia clínica, inclusive em populações com barreiras de acesso a serviços regulares, sugerindo que a modalidade assíncrona pode facilitar o engajamento de pacientes mais jovens, com agendas instáveis ou com maior dificuldade em se colocar frente a frente na sessão.
Espaço clínico mais distribuído no tempo: Em vez de um “pico” de trabalho psíquico concentrado em um horário semanal, o dispositivo assíncrono permite que o paciente trabalhe psíquicamente em “micro‑sessões” de fala e escuta ao longo de um período, o que pode favorecer processos de mentalização e autorreflexão continuada.
Possibilidade de complementação ao setting tradicional: Em um modelo híbrido, a modalidade assíncrona pode servir como sustentação entre sessões presenciais ou por vídeo, funcionando como um “fio de continuidade” em momentos de crise, mudança de cidade, impossibilidade temporária de deslocamento ou reorganização da rotina do paciente, sem romper o vínculo.
Principais desvantagens e respostas possíveis
  1. Risco de diluição do setting e do enquadre Crítica: A troca de áudios ao longo do dia poderia “diluir” o setting, confundindo os limites da sessão e transformando o terapeuta em alguém permanentemente disponível.
Resposta: O risco de diluição é real se não houver enquadre claro. Por isso, a proposta prevê um tempo delimitado (por exemplo, uma faixa horária ou um dia específico) em que as mensagens serão consideradas parte da “sessão”, com regras explícitas sobre início, fim e frequência de respostas. Fora desse período, o terapeuta não responde, preservando limites semelhantes aos de um horário de sessão convencional, apenas distribuído no tempo. A clareza contratual é aqui tão importante quanto em qualquer outro setting (online ou presencial).
  1. Sobrecarga e invasão da vida pessoal do terapeuta Crítica: A modalidade poderia sobrecarregar o terapeuta, com notificações constantes e sensação de estar sempre “em atendimento”.
Resposta: A viabilidade depende de um manejo técnico e organizacional rigoroso. É possível, por exemplo, silenciar notificações e reservar blocos específicos do dia para ouvir e responder, da mesma forma que se reserva um horário para sessões. A proposta não implica disponibilidade 24h, mas redistribuição do tempo clínico em um formato diferente. Cabe ao terapeuta avaliar quantos pacientes podem se beneficiar desse dispositivo sem comprometer seu próprio limite psíquico e organizacional. ​
  1. Empobrecimento da comunicação não verbal Crítica: A ausência de vídeo (ou de presença física) poderia prejudicar a percepção de aspectos não verbais importantes para a compreensão transferencial e contratransferencial.
Resposta: Toda modalidade mediada por tecnologia envolve perdas e ganhos. No caso dos áudios, embora se percam expressões faciais e gestos, permanece a riqueza prosódica da voz (tom, ritmo, pausas, lapsos, silêncios), que também é uma fonte importante de material clínico. Além disso, o contexto geral do paciente (situações relatadas, padrões de horários, urgência, repetições nos áudios) pode ser analisado como parte da cena transferencial. Em muitos casos, a maior espontaneidade de falar “no fluxo da vida” pode inclusive revelar aspectos que não emergem com tanta facilidade na sessão formal. ​
  1. Questionamentos sobre eficácia em comparação à sessão tradicional Crítica: Não haveria evidência de que intervenções assíncronas sejam comparáveis, em eficácia, à psicoterapia face a face ou por vídeo.
Resposta: A literatura internacional tem crescido nesse campo. Ensaios clínicos e estudos observacionais sugerem que a psicoterapia baseada em mensagens (texto ou áudio), quando conduzida por profissionais qualificados, pode ser tão eficaz quanto formatos síncronos em reduzir sintomas depressivos e ansiosos e em manter boa aliança terapêutica. Claro que não se trata de uma equivalência absoluta em todos os casos, mas de uma alternativa válida e baseada em evidências para certos perfis de pacientes e contextos. A decisão clínica continua sendo caso a caso.
  1. Dificuldade de registro, sigilo e guarda de dados Crítica: A troca de áudios em aplicativos comerciais levanta questões de sigilo, privacidade e manejo de dados sensíveis.
Resposta: Essa preocupação é central e não deve ser minimizada. É fundamental orientar o paciente sobre uso de senha no aparelho, não compartilhamento do dispositivo, cuidado com escuta de áudios em ambientes públicos, além de explicitar os limites de segurança técnica da plataforma escolhida. Do lado do terapeuta, é importante utilizar recursos de proteção (senhas, criptografia quando possível, evitar backup automático em dispositivos compartilhados) e, sempre que disponível, considerar plataformas que cumpram requisitos éticos e legais locais. Em termos éticos, a confidencialidade é regida pelos mesmos princípios da clínica tradicional: o meio muda, a responsabilidade permanece. ​
  1. Risco de reforçar “hiperconectividade” e dependência Crítica: Esse tipo de modalidade poderia reforçar uma relação de dependência com o terapeuta ou com o celular, estimulando o paciente a falar compulsivamente ou a buscar respostas imediatas.
Resposta: Esse risco não é desprezível, sobretudo em quadros com alta impulsividade, traços aditivos ou dificuldades importantes de simbolização. Entretanto, o próprio manejo desses movimentos pode se tornar material de trabalho clínico: o excesso de áudios, a expectativa de resposta instantânea, o incômodo com o tempo de espera, tudo isso pode ser interpretado e devolvido ao paciente como parte da dinâmica transferencial. Mais uma vez, o enquadre (frequência de resposta, tempo combinado, explicitação de que não se trata de “plantão emocional 24h”) é determinante para não confundir terapia com atendimento emergencial permanentemente aberto. ​
Considerações finais
A modalidade assíncrona via WhatsApp, baseada em troca de áudios em um período delimitado, pode ser compreendida como uma variação contemporânea do setting, alinhada ao que a literatura descreve como intervenções digitais assíncronas guiadas por profissional, com evidências crescentes de eficácia e aceitabilidade. Não se trata de uma solução universal, mas de um recurso a ser avaliado caso a caso, à luz da estrutura psíquica do paciente, das condições concretas de vida e das possibilidades reais do terapeuta.
Quando bem enquadrada, explicitada contratualmente e sustentada por reflexão ética e teórica, essa proposta pode ampliar o acesso ao cuidado, preservar a profundidade do trabalho e criar um espaço de elaboração mais próximo da experiência cotidiana do paciente, sem abrir mão dos princípios fundamentais da clínica.