O mito de Medéia: quando a vingança amorosa atinge os filhos
Em uma noite em Itumbiara, o roteiro parecia conhecido demais: pai amoroso, filhos sorrindo, legenda falando de amor. Thales Naves Machado, secretário de Governo do município e genro do prefeito, postava nas redes sobre os meninos, sobre família, sobre o quanto eles eram importantes. Nos bastidores, porém, havia uma crise conjugal, uma carta mencionando traição, um sujeito à beira do insuportável. Horas depois, dentro de casa, ele atira nos dois filhos: o mais velho, de 12 anos, morre; o mais novo, de 8, fica gravemente ferido; em seguida, ele se mata. O que era cenário de “família ideal” vira, num giro trágico, uma das cenas mais brutais que uma comunidade pode testemunhar.
Quando lemos notícias assim, a reação espontânea é moral: “monstro”, “covarde”, “como um pai é capaz disso?”. A psicanálise não passa pano para o horror, mas desloca a pergunta: o que se arma, subjetivamente, para que alguém escolha atingir o outro naquilo que há de mais comum entre os dois – os filhos? É aqui que o mito de Medéia volta a falar, e fala alto.
Medéia: a mulher que destrói o que é comum
Na tragédia de Eurípides, Medéia é tudo, menos “fraca”. Ela é estrangeira, feiticeira, abandona sua terra natal por Jasão, ajuda-o a conquistar o velo de ouro, foge com ele, tem filhos, constrói uma vida. Quando Jasão decide deixá-la para se casar com a filha do rei Creonte, o chão subjetivo de Medéia racha: a mulher que havia apostado tudo nesse homem se vê descartada e humilhada.
A resposta dela é escalonada: primeiro, mata a nova noiva; depois, mata Creonte; e, por fim, com uma frieza que ainda hoje choca, decide matar os próprios filhos para ferir Jasão no lugar mais sensível. Os meninos, que eram fruto do amor, viram instrumento da vingança. Ela sabe que não há golpe mais duro para um pai do que perder os filhos; é exatamente por isso que decide golpeá-lo ali.
A tragédia mostra, de forma quase insuportável, o ponto em que o amor vira devastação: quando o outro se torna tão central para o narcisismo do sujeito que, ao ser vivido como traidor, arrasta junto tudo o que os dois construíram. O infanticídio, aqui, não é “loucura qualquer”, mas a lógica extrema de um amor que não tolera perda.
O olhar psicanalítico sobre Medéia
Freud não fez de Medéia um eixo de sua teorização, como fez com Édipo, mas a tradição psicanalítica se apropriou da tragédia para pensar justamente essa mistura de amor, ódio e ferida narcísica. Quando o objeto amoroso é sentido como traidor, a libido pode se transformar em ódio, e o desejo de preservar o vínculo vira desejo de destruir aquilo que lembra esse vínculo.
Autores psicanalíticos que trabalham o mito falam em uma devastação específica do feminino: uma mulher que colocou todo o seu ser na relação com um homem e, ao ser abandonada, sente que nada sobra de si. Em vez de elaborar a perda, ela tenta devolvê-la em forma de catástrofe. Os filhos entram como meio privilegiado: são, ao mesmo tempo, o que ela tem de mais próprio e o que é mais compartilhado com Jasão.
Lacan ajuda a ir além da oposição amor/ódio, trazendo a noção de gozo. Em Medéia, há um gozo em destruir aquilo que ela mesma gerou com o parceiro, um excesso que não se explica apenas por “raiva” ou “ciúme”. É como se o ato dela dissesse: “se você me tirou tudo, eu tiro de você até o futuro encarnado nesses filhos”. Não se trata apenas de perder o outro, mas de negar que algo dele continue vivo.
Da Medéia trágica à “epidemia de Medéias”
Jorge Forbes retoma esse mito para falar de algo que ele observa na clínica contemporânea: o que ele chama de “epidemia de Medéias”. Segundo ele, estamos diante de uma nova forma de histeria, muito mais perigosa, que não se limita aos sintomas conversivos clássicos, mas que atenta diretamente contra os semblantes da civilização – a cultura, os laços de amizade, e, sobretudo, a família.​
Nessa configuração, vemos sujeitos (frequentemente mulheres jovens, mas não apenas) que, diante de uma ruptura amorosa, respondem com atos violentos, às vezes fatais, contra os próprios filhos ou contra os pais. Forbes nota que esses atos têm um grau de intencionalidade e cálculo que os distancia de certas passagens psicóticas: trata-se de um gozo irrefreável que, no entanto, pode ser planejado. A Medéia contemporânea, para ele, não é só aquela que “odeia o ex”, mas aquela que está disposta a destruir o que há de comum entre eles.​
Se pensarmos na linguagem jurídica e clínica mais recente, a “síndrome de Medéia” costuma aparecer associada à alienação parental: um dos pais, muitas vezes a mãe, usa os filhos como arma contra o outro, desde a desqualificação sistemática até a tentativa de apagar o vínculo com aquele genitor. A criança deixa de ser reconhecida como sujeito e passa a ocupar o lugar de objeto de vingança. A “epidemia de Medéias” empurra isso um passo adiante: não se trata apenas de afastar o filho do outro, mas, em casos extremos, de destruí-lo – no limite, de repetir Medéia e matar os filhos para atingir o ex-parceiro.
Itumbiara: uma Medéia masculina?
Com esse pano de fundo, voltemos a Itumbiara. As reportagens contam que Thales Naves, além de secretário municipal e figura pública, era genro do prefeito, vivia uma crise no casamento, e deixou carta mencionando essa crise e uma possível traição. Pouco antes do crime, publicou conteúdo nas redes exaltando os filhos, reforçando a imagem de pai dedicado. Depois, em sua própria casa, mata o menino de 12 anos, fere gravemente o de 8 e se mata.
Se deslocamos o olhar da pergunta “como um pai é capaz disso?” para “o que esse ato tenta dizer ao outro?”, a aproximação com Medéia fica menos abstrata. Em ambas as histórias, a sensação de traição e humilhação amorosa parece central. Em ambas, a resposta não se limita à ruptura do casal: ela se dirige aos filhos, como se atingir as crianças fosse o único modo de fazer o outro sentir na carne a mesma devastação.
No mito, Medéia mata os filhos para que Jasão não os tenha, para que não continue através deles. Em Itumbiara, o pai atinge exatamente o que há de mais compartilhado com a esposa: os meninos. A mensagem possível – não consciente, mas estruturante – é: “se eu te perco, você perde comigo o que temos de mais precioso”. É uma forma extrema de negar ao outro qualquer continuidade.
É claro que não estamos equiparando um sujeito real a uma personagem literária, nem diagnosticando à distância. Mas o mito nos oferece uma matriz de leitura: quando a dor amorosa encontra um vazio simbólico – um cenário em que faltam recursos de palavra, de elaboração, de suporte – ela pode deslizar para a lógica do tudo ou nada. E, nessa lógica, os filhos deixam de ser vistos como sujeitos com história própria e passam a ser peças em um tabuleiro de vingança.
Por que ainda precisamos de Medéia para pensar o presente
Pode parecer estranho recorrer a uma tragédia grega para pensar um crime acontecido em 2026, em uma cidade do interior de Goiás. Mas é justamente isso que os mitos fazem de melhor: eles condensam, em forma narrativa, algo que se repete, com outras roupagens, ao longo da história. Não é coincidência que vários autores contemporâneos falem em “filhos de Medéia” ao analisar alienação parental, infanticídios e disputas conjugais violentas.
O caso de Itumbiara não é “Medéia reencarnada”. Mas ele é uma atualização dolorosa da mesma estrutura: alguém que, diante de uma perda amorosa vivida como intolerável, ataca o que deveria ser intocável. A “epidemia de Medéias” de Forbes dá nome a essa forma de sofrimento, em que o laço amoroso, em vez de suportar a castração e a perda, se converte em vontade de aniquilação.​
A psicanálise não explica tudo nem absolve ninguém. O que ela pode fazer é mostrar que, por trás do espanto moral, há lógicas de gozo e de fantasia que se repetem – do teatro de Eurípides às manchetes de hoje. E que, se quisermos evitar novas tragédias, não basta dizer às pessoas que “pensem nos filhos”: é preciso criar espaços onde a dor da perda, da humilhação e da traição possa ser dita antes de ser atuada – para que, diante da ferida, alguém ainda possa escolher não se tornar Medéia.