Entre a Guerra e a Paz: O Tempo da Trégua
A luz pálida do corredor do hospital era o único testemunho da madrugada. Carolina sentiu o calor do café recém-feito nas mãos, enquanto seus olhos procuravam os de Marcos. Haviam passado a última semana ali, entre o bip constante dos monitores e o sussurro abafado de enfermeiros. A cadeira desconfortável já tinha o formato de seus corpos exaustos. Duas semanas antes, a única comunicação entre eles era através de advogados, pontuada por gritos e acusações. Agora, a guerra conjugal estava suspensa, engavetada entre as pílulas para febre e os soros intravenosos. O filho deles, pequeno e frágil, era a única batalha que importava, e por um tempo, eles eram apenas dois pais assustados, unidos no medo de perder.
Essa suspensão, essa pausa forçada na batalha que travavam, é um exemplo vívido de que há um tempo de fazer e um tempo de esperar. Entre esses dois movimentos, cabem muitos lutos que não são da morte, mas das formas como imaginávamos que a vida seria. Eclesiastes 3 nos lembra que “há tempo para todo propósito debaixo do céu”, tempo de nascer e tempo de morrer, “tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar; tempo de rasgar e tempo de costurar; tempo de calar e tempo de falar”. Quando o texto enumera esses pares, ele descreve algo que o corpo já sabe: não se atravessa todas as dores resolvendo-as imediatamente; algumas precisam apenas ser atravessadas, enquanto outras áreas da vida seguem funcionando como podem.
O luto das coisas.
Costumamos pensar o luto como resposta à morte física. Mas há um luto silencioso que atravessa casamentos, sociedades, relações entre pais e filhos: o luto das coisas. O luto da imagem idealizada do cônjuge que nunca erraria, da empresa que sempre daria certo, do filho perfeito ou dos pais impecáveis. Esses lutos não costumam ser reconhecidos socialmente, mas produzem efeitos profundos: cansaço, frieza, irritação, afastamento. É como se o corpo dissesse: “não dou conta de carregar tudo isso e ainda viver como se nada estivesse acontecendo”. E, então, ele começa a desligar algumas funções: a libido diminui, a capacidade de diálogo falha, o humor oscila. É o tempo em que algo precisa parar para que a vida, de algum modo, possa continuar.
Eclesiastes fala em “tempo de perder e tempo de guardar; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar”. Em muitas crises, não se trata ainda de decidir se a relação acaba ou permanece, mas de aceitar que certas ilusões já morreram. O casal segue junto, mas precisa fazer o luto da fantasia de que nunca brigaria. Os sócios continuam na empresa, mas precisam enterrar a ideia de que, por serem amigos, jamais haveria conflito. Pais e filhos permanecem em vínculo, mas a criança ideal – que só existia na imaginação – precisa dar lugar ao filho real, com limites, falhas e escolhas próprias. Esse luto das formas é doloroso, mas, muitas vezes, é o que permite que a relação continue viva, ainda que mais humilde, mais verdadeira.
Quando insistir destrói.
Nem sempre é tempo de mexer na ferida. Há momentos em que insistir em “resolver tudo” é a pior forma de cuidado. É como tentar costurar um tecido ainda encharcado de sangue: a agulha machuca, a linha não firma, o rasgo aumenta. Eclesiastes também fala de “tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar”. Há épocas em que o melhor que duas pessoas podem fazer pela relação é reconhecer que não estão em condições de discutir tudo: não porque isso não importe, mas porque, se insistirem agora, só acrescentarão destroços ao que já está frágil. Foi o que aconteceu com Carolina e Marcos. A urgência de cuidar do filho doente os impôs uma trégua que, sem resolver o conflito, permitiu que a aliança de pais se fortalecesse no corredor do hospital, suspendendo a guerra conjugal para enfrentar um perigo maior.
Pai e filho “inimigos” no corredor do hospital
Algo semelhante pode acontecer entre pais e filhos que se tornaram “inimigos”. Un pai e um filho adulto rompem o contato após uma briga de herança. Anos de silêncio, processo judicial, conversas atravessadas por terceiros. Um dia, a mãe adoece: internação, prognóstico reservado, rotina de hospital. O filho, que não falava com o pai, precisa encontrá‑lo no leito da esposa em comum. Ali, diante de tubos e monitores, as razões da briga não desaparecem, mas recuam alguns passos. É preciso decidir horários de visita, quem dorme na poltrona do hospital, quem fala com os médicos. As conversas, curtas e duras, giram em torno da mãe: “Você fica hoje à noite ou eu fico?”; “O médico passou aqui?”. Não se fala da herança. Não há pedido de perdão. Mas há uma suspensão da inimizade para que ambos possam cuidar da mesma pessoa.
Esse período cria um novo tipo de memória entre eles: não a da festa em família, mas a das noites compridas de espera; não a dos aniversários, mas a da cafeteira do hospital. A herança continua um problema, a mágoa permanece. Porém, quando, anos depois, esse assunto volta à mesa – talvez em uma audiência, talvez em uma conversa íntima – os dois já foram marcados pela experiência de terem, por um tempo, suportado juntos o medo de perder alguém. O conflito não é apagado; é enquadrado de outra maneira. O tempo de calar, nesse caso, foi o tempo de reconhecer, com o corpo, que havia algo mais urgente do que a necessidade de ter razão.
Sócias em guerra, depois aliadas
Também nas sociedades profissionais, o tempo do conflito nem sempre coincide com o tempo da ação. Duas sócias, que construíram uma empresa a partir de uma amizade, veem diferenças de visão e injustiças pesarem até que cada uma vê a outra como ameaça. A sociedade balança, a amizade parece perdida. Nesse exato momento, chega uma notificação fiscal grave, ameaçando o negócio. Em vez de continuar brigando e destruir a empresa, elas optam por uma trégua estratégica, decidindo focar apenas no necessário para mantê-la de pé. Esse acordo não as torna amigas novamente, mas as força a cooperar. A cada problema enfrentado em conjunto, a imagem de “inimiga absoluta” ganha nuances, revelando a pessoa que também esteve na mesma sala, enfrentando o mesmo medo de falir. O tempo de crise fiscal serve como um intervalo em que o laço não morre, apesar de ferido. A paz, nesse estágio, não é sentimento; é uma decisão mínima de não aniquilar o outro.
Irmãos rivais no mesmo medo
O mesmo vale para irmãos que passaram a vida em rivalidade. Dois irmãos que sempre disputaram tudo – notas, atenção dos pais, conquistas profissionais – mal se suportam na vida adulta. Uma discussão mais pesada rompe o contato. O acaso, porém, não respeita essas decisões: um acidente grave com o pai obriga os dois a se reencontrarem em uma sala de espera. De inimizade aberta, passam a um silêncio tenso, lado a lado. Falam pouco: “O médico já veio?”; “Ele vai precisar de cirurgia?”. As velhas comparações não desaparecem, mas, por algumas semanas, perdem importância frente à vulnerabilidade daquele pai que antes parecia invencível.
Anos depois, ao conversarem sobre a própria história, talvez percebam que ali começou uma mudança: não, eles não se tornaram “melhores amigos”, mas passaram a se ver como dois filhos assustados, não apenas como rivais. O tempo de chorar – no caso, chorar pela fragilidade dos pais – abriu espaço para um olhar menos infantil sobre a competição antiga. A rivalidade não é “resolvida”, mas é relativizada. Aquilo que parecia absoluto ganha contornos humanos.
O tempo que passa por nós
Essas histórias – como a de Carolina e Marcos – mostram que, nas relações, há situações em que o trabalho principal não é resolver o conflito, mas garantir que ele não destrua a possibilidade de um encontro futuro. “Tempo de calar e tempo de falar” pode ser lido, então, como um convite a discernir: este é um momento de elaboração ou de sobrevivência? Há fases em que o corpo e a psique estão tão ocupados em suportar uma perda, uma doença, uma ameaça concreta, que insistir em “botar tudo em pratos limpos” é quase uma agressão. Nesses casos, o silêncio combinado – “voltaremos a esse assunto depois” – pode ser profundamente ético.
Para casais, pais e filhos, sócios, amigos, a proposta não é glorificar o adiamento eterno, nem justificar fugas crônicas de conflito. Há problemas que, se forem empurrados indefinidamente, apodrecem – e apodrecem junto com o vínculo. Mas há outros que precisam de tempo para perder o incêndio e se tornarem brasas que possam, enfim, ser manejadas. O corpo, muitas vezes, dá sinais de que esse tempo chegou: a pessoa volta a dormir um pouco melhor, consegue ouvir sem explodir, consegue nomear a dor sem se afogar nela. Pode ser o começo do “tempo de falar”. Eclesiastes 3, ao listar nascimentos e mortes, risos e choros, abraços e afastamentos, lembra que a vida é feita de ciclos que não controlamos totalmente. Reconhecer isso é um gesto de humildade e também de liberdade. Humildade, porque admitimos que nem tudo pode ser curado na hora que queremos. Liberdade, porque descobrimos que, mesmo sem entender todos os porquês, podemos escolher como atravessar cada tempo: se como inimigos decididos a vencer o outro, ou como pessoas dispostas a, pelo menos, não destruir a ponte pela qual talvez precisem passar um dia.
Talvez, no fim, o que Eclesiastes sugira é que o mais importante não é escapar dos tempos de chorar, rasgar e calar, mas aprender a habitá‑los sem perder de vista que eles também passam. Em muitos vínculos, a crise não é o ponto final, mas a estação intermediária entre uma forma de relação que já não serve e outra que ainda não sabemos qual será. Ajudar casais, famílias e sócios a suportar esse “entre” – sem exigir soluções imediatas, sem forçar reconciliações artificiais – é confiar que, em algum momento, virá de novo o tempo de costurar, de falar, de rir, ainda que seja um riso mais simples, menos triunfante e mais verdadeiro.
A Oração da Serenidade e o Discernimento dos Tempos
A sabedoria milenar de Eclesiastes encontra eco em uma prece moderna, mas não menos profunda: a Oração da Serenidade. “Deus, concede-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras.” Esta oração, frequentemente associada à superação de vícios e desafios pessoais, oferece uma lente poderosa para entender a dinâmica dos conflitos interpessoais e a gestão do tempo, tema central deste ensaio. Ela nos convida a uma introspecção sobre o que está sob nosso controle e o que não está, um discernimento que se revela crucial para a preservação de qualquer relação humana.
A ligação entre a Oração da Serenidade e as fases da vida descritas em Eclesiastes é inegável. A “coragem para mudar” alude ao “tempo de falar”, de “costurar”, de agir proativamente onde a intervenção é possível e necessária para resgatar ou redefinir um vínculo. Já a “serenidade para aceitar” dialoga diretamente com o “tempo de calar”, de “prantear”, de permitir que certas feridas cicatrizem naturalmente, sem a pressão de uma resolução imediata. É a aceitação de que nem toda batalha deve ser travada no presente, e que insistir em “resolver tudo” pode ser mais destrutivo do que a própria inação. As histórias de Carolina e Marcos, ou dos irmãos rivais, são testemunhos dessa serenidade forçada, que, no silêncio e na espera, permitiu que algo novo e mais verdadeiro pudesse emergir.
No cerne de ambas as filosofias, está a “sabedoria para distinguir” – o mais árduo dos desafios. É essa sabedoria que nos permite discernir se estamos no “tempo de rasgar” ou no “tempo de costurar”; se um conflito exige a coragem de ser enfrentado ou a serenidade de ser temporariamente suspenso. Reconhecer se um problema está “apodrecendo” ou apenas “perdendo o incêndio” para se tornar brasa é a habilidade que define a maturidade relacional. Em um mundo que frequentemente exige respostas e soluções imediatas, tanto Eclesiastes quanto a Oração da Serenidade nos convidam a um ritmo mais humano, lembrando-nos que, para preservar laços, o discernimento entre o “tempo de calar” e o “tempo de falar” é, talvez, a mais difícil e necessária das virtudes.