Para casais, pais e filhos, sócios, amigos, a proposta não é glorificar o adiamento eterno, nem justificar fugas crônicas de conflito. Há problemas que, se forem empurrados indefinidamente, apodrecem – e apodrecem junto com o vínculo. Mas há outros que precisam de tempo para perder o incêndio e se tornarem brasas que possam, enfim, ser manejadas. O corpo, muitas vezes, dá sinais de que esse tempo chegou: a pessoa volta a dormir um pouco melhor, consegue ouvir sem explodir, consegue nomear a dor sem se afogar nela. Pode ser o começo do “tempo de falar”. Eclesiastes 3, ao listar nascimentos e mortes, risos e choros, abraços e afastamentos, lembra que a vida é feita de ciclos que não controlamos totalmente. Reconhecer isso é um gesto de humildade e também de liberdade. Humildade, porque admitimos que nem tudo pode ser curado na hora que queremos. Liberdade, porque descobrimos que, mesmo sem entender todos os porquês, podemos escolher como atravessar cada tempo: se como inimigos decididos a vencer o outro, ou como pessoas dispostas a, pelo menos, não destruir a ponte pela qual talvez precisem passar um dia.