Por que começar pelos textos de Freud?
Um Grupo de Leituras em Freud não é um luxo erudito: é o chão mínimo de sustentação teórica para quem se propõe à clínica psicanalítica. Sem esse apoio, a formação corre o risco de se reduzir a slogans sobre inconsciente, desejo e transferência, sem contato com o modo como essas noções foram, de fato, construídas na obra freudiana.​
Por que começar pelos textos de Freud?
Desde cedo, Freud insistiu que a formação do analista exige estudo permanente da teoria, ao lado da análise pessoal e da supervisão. Isso significa voltar, sempre, aos textos – não apenas aos resumos. É em casos como Dora, o Homem dos Ratos, o Pequeno Hans, que se vê nascer, frase a frase, aquilo que depois vira “conceito nos manuais”. Quando essa leitura é substituída por apostilas simplificadas, a teoria perde espessura: o Édipo vira fórmula, a transferência vira “vínculo”, o inconsciente se dilui em “mente inconsciente” genérica, indistinta de outras psicologias.​
Freud adverte, em diversos momentos, para o perigo de ensinar apenas “as teorias da análise” sem que o futuro analista se confronte com a experiência e com o esforço de elaboração que essas teorias condensam. Um grupo de leitura em Freud recoloca o texto no centro: ler, comentar, estranhar, localizar onde o autor hesita, corrige, reescreve, e como cada conceito nasce de um impasse clínico, não de uma abstração de gabinete.​
O “retorno a Freud” em Lacan
Quando Lacan propõe seu célebre “retorno a Freud”, não está sugerindo um culto arqueológico ao passado, mas a necessidade de reler Freud para recolocar a psicanálise em seu eixo. Em textos como “A coisa freudiana” e no Seminário 1, ele insiste que é preciso voltar ao texto de Freud – às letras, às construções de caso, ao modo como Freud escreve e pensa – para escapar das leituras adaptativas e psicologizantes que haviam domesticado a psicanálise.​​
Esse retorno, como mostram vários comentadores, é simultaneamente fidelidade e invenção: Lacan extrai de Freud o inconsciente estruturado como linguagem, o estatuto da fala e do significante, a centralidade do desejo, construindo uma psicanálise renovada sem abandonar o campo freudiano. Mas nada disso seria possível se Freud fosse apenas conhecido “por ouvir dizer”. Lacan lê minuciosamente os textos técnicos, os casos clínicos, as cartas, e sua própria originalidade nasce desse trabalho de leitura rigorosa.​​
“Voltar para Freud” sem nunca tê‑lo lido?
Aqui aparece a pergunta decisiva para a formação atual: como alguém pode falar em “retorno a Freud” sem, antes, ter ido a Freud? Um analista que conhece Freud apenas por meio de apostilas e frases soltas tende a repetir uma imagem congelada do autor, não a se confrontar com a vitalidade, as dúvidas e até as contradições que atravessam sua obra.​
“Voltar a Freud sem lê‑lo” é, no limite, transformar o retorno em palavra de ordem vazia. Em vez de ser um convite à leitura, vira rótulo identitário: declara‑se freudiano ou lacaniano, mas a referência real não é o texto, e sim a tradição filtrada por terceiros. O risco é produzir uma formação de segunda mão, em que se repete vocabulário sofisticado sobre pulsão, gozo ou objeto a, porém sem o lastro conceitual que permita sustentar a clínica diante do sofrimento singular de cada paciente.​
O papel de um Grupo de Leituras em Freud
Um Grupo de Leituras em Freud responde exatamente a essa lacuna. Ele cria um espaço regular em que:
  • lê‑se o próprio Freud, em sequência, com tempo para tropeçar, perguntar, comparar traduções;
  • articula‑se cada texto com a prática clínica dos participantes, evitando que a leitura se torne apenas acadêmica;
  • prepara‑se o terreno para, depois, acompanhar seriamente o retorno de Lacan a Freud – e não apenas repetir que esse retorno existiu.​​
Nessa perspectiva, a formação analítica que se leva a sério começa por uma pergunta simples: quanto de Freud há, de fato, na minha formação? Um grupo de leituras é uma maneira concreta de transformar essa pergunta em percurso: página por página, caso por caso, conceito por conceito, o analista em formação se apropria da herança freudiana em primeira mão, para então poder, com Lacan e outros, criticá‑la, relê‑la e reinventá‑la – mas nunca sem tê‑la lido.