Há quem diga que Lacan é difícil antes mesmo de abrir o livro.
Talvez por isso tanta gente pare na capa: sabe que ele é importante, repete seu nome com respeito, mas guarda os seminários na prateleira dos “intocáveis”. Um Grupo de Leituras em Lacan nasce justamente para fazer o contrário: tirar esses livros da prateleira, colocá‑los no meio da roda e deixar que a voz de Lacan atravesse a sala, com o tempo que for preciso.​
Num encontro assim, não se começa “entendendo”, começa‑se tropeçando. Alguém lê em voz alta, outro sublinha uma frase estranha, alguém volta três páginas para ver onde o fio se perdeu; às vezes, uma vinheta de clínica ilumina um parágrafo que parecia indecifrável, e de repente aquela frase se encaixa numa experiência concreta com um paciente. O texto deixa de ser monumento e vira conversa: um pedaço de linguagem que provoca, incomoda, ajuda a enxergar onde o analista se acomoda demais ou onde ainda não tinha ousado escutar.​
Lacan renovou a psicanálise ao recolocá‑la no terreno da linguagem e ao lembrar que o inconsciente não é um depósito de coisas escondidas, mas um certo modo de falar que escapa ao sujeito. Sem ler isso de perto, a formação corre o risco de se contentar com um “lacanês de superfície”: significante, Outro, objeto a, gozo – palavras fortes, mas desligadas da trama conceitual que lhes dá sentido e, sobretudo, das consequências clínicas que elas trazem. A clínica fica cheia de termos sofisticados, porém pobre de sustentação, como se bastasse citar Lacan para que a escuta se tornasse lacaniana.​
Um Grupo de Leituras é um antídoto contra essa formação de segunda mão. Em vez de consumir resumos, o analista em formação se coloca diante do texto, com lápis e tempo. Para não se perder no labirinto, é possível traçar um percurso inicial, apoiado nos textos mais relevantes:​
  • Começar por “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, em Escritos, onde Lacan explica por que decidiu recolocar a psicanálise no eixo da fala, e por “O seminário sobre ‘A carta roubada’”, que mostra, em forma de conto policial, como o significante comanda a cena antes mesmo dos personagens saberem disso.​
  • Entrar, então, nos primeiros seminários: o Seminário 1 – Os escritos técnicos de Freud, em que Lacan relê a clínica freudiana e reabre questões básicas de técnica, e o Seminário 2 – O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, que desloca o “eu” do centro da experiência e abre espaço para a noção de sujeito do inconsciente.​
  • Por fim, dar um salto para o Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, ponto de virada em que Lacan articula de maneira condensada inconsciente, repetição, transferência e pulsão, redefinindo o lugar do analista e a direção da cura.​
Ler Lacan assim, em grupo, é uma forma de deixar que o texto trabalhe em nós: cada encontro acrescenta uma dobra, uma pergunta nova, um modo diferente de ouvir o que, antes, soava apenas como ruído. Aos poucos, quase sem perceber, o analista em formação descobre que já não escuta seus pacientes do mesmo jeito: a palavra “insignificante” do paciente ganha peso de significante, um lapso se torna pista, um silêncio deixa de ser vazio para virar presença. É aí que se vê que o Grupo de Leituras não era só um compromisso de agenda, mas um dos lugares discretos em que a formação analítica realmente acontece.