Quando o analista precisa sentir: por que ler Ferenczi em grupo
Há autores que chegam como teoria, e há autores que chegam como companhia. Ferenczi costuma ser dos segundos. Lê‑lo é ter, ao lado do divã, alguém que pergunta o tempo todo se, por trás de tanta técnica, ainda estamos de fato olhando para a dor do paciente. Um Grupo de Leituras em Ferenczi nasce desse incômodo: e se a formação analítica precisasse também se deixar afetar por um analista que insistiu, até o fim, que o sofrimento do outro vem antes do conforto das nossas convicções?​
Em volta da mesa, cada um chega com seu texto sublinhado, anotações na margem, dúvidas sobre palavras como “tato”, “elasticidade”, “trauma”, “mentira”, “linguagem da ternura”. Alguém lê um trecho em que Ferenczi defende que todo psicanalista deve se submeter a uma análise rigorosa – sua “segunda regra fundamental” –, outro lembra a frase em que Freud chamava suas contribuições de “puro ouro” para a psicanálise. Aos poucos, o que parecia um autor distante se revela como alguém profundamente preocupado com a formação do analista: não apenas o tripé clássico (análise, teoria, supervisão), mas a necessidade de que esse tripé esteja permeado por presença afetiva, honestidade e capacidade de “sentir com” o paciente.​
Ferenczi foi um dos primeiros a escrever, sem rodeios, sobre aquilo que muitas vezes preferimos evitar: o trauma precoce, a violência silenciosa, a identificação ao agressor, os efeitos de uma análise que, por dureza ou cegueira, pode repetir o desamparo vivido na infância. Ele fala da importância do tato analítico – esse “sentir com” que exige do analista um rigoroso controle de seu próprio narcisismo – e da tal “elasticidade da técnica”, não como frouxidão, mas como arte de se aproximar o bastante sem esmagar o outro. São textos que desafiam qualquer formação muito segura de si, acostumada a esconder o corpo e o afeto atrás de conceitos bem arrumados.​
Num Grupo de Leituras em Ferenczi, essas questões deixam de ser apenas ideias. Quando alguém lê um caso em que o paciente só consegue sobreviver mentindo e Ferenczi diz que um dos sinais de fim de análise é justamente a possibilidade de abandonar a mentira, a sala fica um pouco mais silenciosa. Cada um lembra de pacientes que vivem nesse fio: entre dizer e não dizer, entre confiar e repetir a velha cena de desautorização. É nesse momento que a leitura se torna formação: a pergunta já não é apenas “o que Ferenczi quis dizer?”, mas “o que isso faz comigo, analista, quando estou diante do meu paciente?”.​
Para que esse movimento ganhe corpo, o grupo pode seguir um caminho de leituras que acompanhe o próprio percurso de Ferenczi:
  • Começar pelos textos sobre formação e técnica, em que ele discute a análise do analista, o papel da supervisão e o cuidado com o narcisismo profissional – textos que ajudam a olhar de frente a nossa própria formação.​
  • Avançar para os escritos sobre técnica ativa, trauma e fim de análise, onde aparecem as ideias de mentira, neocatarse, identificação ao agressor e a ousadia de questionar uma psicanálise que se havia tornado “intelectual demais” e pouco atenta ao corpo ferido do paciente.​
  • Por fim, entrar nos textos tardios, da linguagem da ternura, da mutualidade e da confiança, em que Ferenczi arrisca perguntar até onde o analista pode tornar‑se verdadeiramente presença, sem perder o lugar ético que o diferencia de qualquer outro vínculo.​
Em cada encontro, um ensaio é lido previamente e trazido à roda para conversa aberta, entrelaçando passagens do texto com experiências de consultório, impasses de formação e perguntas que ainda não têm resposta. O que se constrói ali não é um “ferenczianismo” pronto, mas uma sensibilidade afinada com aquilo que o próprio Ferenczi buscava: uma psicanálise capaz de se aproximar mais da dor do paciente sem abandonar o rigor do método, e capaz de reconhecer, com humildade, que o analista também precisa estar sempre em formação.