Como se forma um psicanalista? O fio invisível que une estudo, supervisão e escuta na prática clínica
No contexto da formação psicanalítica, é comum encontrar a ideia de que o percurso do analista se dá de maneira linear, quase acadêmica, cumprindo etapas e requisitos, onde a escrita surge apenas como um registro ou compilação de ideias. No entanto, essa perspectiva simplifica um processo intrincado e profundamente pessoal. Inspirado pela complexidade e interconexão presentes na metapsicologia freudiana, que sempre buscou articular diferentes dimensões do aparelho psíquico, senti a necessidade de postular uma teoria que desse conta da real dinâmica da formação. Esta abordagem se distancia de um modelo puramente acadêmico, onde o saber é meramente acumulado, para propor algo mais orgânico e indissociável.
Entrelaçados como um cordão de três fios — formação, supervisão e clínica — guiados por um fio condutor, a escrita, que amarra experiências, casos e perguntas e oferece ao analista o suporte necessário para sustentar e reconhecer o próprio percurso.​
Há frases que funcionam como espelho. Quando essa imagem do cordão trançado apareceu, foi difícil não reconhecer nela algo da própria experiência de formação: nunca foi uma linha reta, nem um degrau atrás do outro. Sempre pareceu mais com algo que se tece: às vezes firme, às vezes frouxo, com nós malfeitos que só são percebidos depois, quando o fio ameaça arrebentar.
A formação, sozinha, tende a virar coleção de conceitos. A supervisão, isolada, corre o risco de se transformar em tribunal: o analista se apresenta para ser absolvido ou condenado pelo “mais experiente”. A clínica, sem nenhum dos dois, pode deslizar para improviso ou repetição de velhos roteiros pessoais. O que a metáfora do cordão de três fios lembra é que nenhuma dessas dimensões se sustenta de pé sem a tensão das outras duas. Não é uma soma, é um entrelaçamento.
"A formação de um analista requer que ele seja levado a um ponto em que não possa mais ignorar a relação entre seu desejo e seu ser."
— Jacques Lacan, "O Seminário, Livro XI: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise"
E aí entra a escrita, esse quarto elemento que não aparece na contagem, mas funciona como fio condutor. Escrever sobre um caso, sobre uma supervisão, sobre uma aula, é aceitar que a experiência passe por uma espécie de segundo tempo: ela retorna, não mais como vivência imediata, mas como algo que pede forma. A escrita obriga a escolher palavras, recortar cenas, decidir o que entra e o que fica de fora. Nesse gesto, o analista descobre também onde está: que posição ocupou, que aposta fez, que ponto não quer olhar.
Essa construção retrospectiva da experiência, onde o significado é atribuído a eventos passados à luz de compreensões posteriores, dialoga com o conceito freudiano de Nachträglichkeit (ação diferida ou a-posteriori), pelo qual o que foi vivido só ganha pleno sentido num segundo momento.
Talvez seja esse o ponto mais delicado: perceber que a escrita não serve apenas para “registrar” o que já aconteceu, mas também para fabricar um lugar de autoria. Quando se escreve um caso, não se trata de dizer “como o paciente é”, e sim de mostrar como se constrói, a partir da fala dele, um certo arranjo de sentido que também recorta o próprio analista. É desconfortável reconhecer que, muitas vezes, o que se chamava “caso difícil” era, na verdade, um limite ainda não nomeado no próprio cordão – um fio que não se assumiu, uma supervisão que não foi feita, um conceito que ficou apenas decorado.
"A posição do analista não é a de um mestre de saber, mas a de alguém que deve sustentar o não-saber para que o saber do sujeito possa emergir."
— Jacques Lacan, "A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder"
Nesse sentido, a escrita pode ser vista como o lugar em que o cordão se deixa examinar mais de perto. Ao escrever, é possível notar onde a formação teórica ainda está solta, onde a supervisão apenas repetiu fórmulas, onde a clínica foi levada por pressa, medo ou vaidade. Não é à toa que tantos autores sublinham os efeitos da escrita sobre o analista: algo do gozo de saber tudo se desarma, e, no lugar, aparece um sujeito que se pergunta o que está fazendo quando diz que está fazendo análise.​
A escrita assume um papel fundamental, similar ao que Freud descreveu em "Construções em Análise" (1937), onde a tarefa do analista não é apenas recordar, mas "construir" uma versão do passado que preenche lacunas e dá coerência à experiência do paciente.
No fundo, a imagem do cordão trançado guiado pela escrita é um lembrete silencioso: não há percurso sem laço. Os três fios se apoiam, se tensionam e, às vezes, se salvam mutuamente. A escrita, ao atravessá‑los, não fecha o desenho; ela o mantém aberto o bastante para que o analista possa continuar se refazendo, caso a caso, frase a frase, sem perder de vista que o percurso é menos um lugar de chegada e mais uma forma de permanecer em trabalho
"O desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter uma diferença absoluta, um desejo de desejar."
— Jacques Lacan, "Ato de Fundação"